Pedir exame é uma das partes da consulta que mais gera insegurança em nutricionista recém-formado — e uma das que mais mudam a qualidade da conduta quando bem feita. Este guia cobre o que solicitar, como montar a guia corretamente e como transformar o resultado em decisão prática.
O que a solicitação de exames muda na sua conduta
Sem exame, boa parte da conduta é inferência: você observa sinais, escuta relatos e monta o plano com o que tem. Com exame, algumas hipóteses viram fato — e outras caem por terra.
O ganho não é pedir mais, é pedir com propósito. Um painel enorme sem hipótese por trás gera custo para o paciente, achados irrelevantes e ansiedade. Um painel enxuto, ligado ao que você viu na anamnese, responde perguntas específicas.
O respaldo profissional
A solicitação de exames laboratoriais como complemento à avaliação nutricional está prevista nas resoluções do Conselho Federal de Nutricionistas. Dois pontos que valem repetir:
- É complementar, não diagnóstica. Quem diagnostica e trata doença é o médico.
- A redação das resoluções muda com o tempo. Confirme a versão vigente no site do CFN e a orientação do seu CRN regional antes de padronizar qualquer rotina no seu consultório.
Este artigo é orientação prática de organização do atendimento, não parecer jurídico.
Um painel inicial que funciona na maioria dos casos
Isto é ponto de partida, não receita — a anamnese é que define o recorte.
Metabolismo de carboidratos
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c) — leitura do momento e da média dos últimos ~3 meses.
- Insulina de jejum, quando há suspeita de resistência à insulina.
Perfil lipídico
- Colesterol total e frações, triglicerídeos. Base para conduta cardiovascular e para acompanhar mudança de composição corporal.
Hematológico
- Hemograma completo — anemia, sinais inflamatórios, resposta a longo prazo do plano.
- Ferritina e ferro sérico — especialmente em mulheres em idade fértil, atletas de endurance e dietas restritivas.
Tireoide
- TSH e, conforme o caso, T4 livre. Queixa de fadiga, dificuldade de perder peso ou ganho inexplicado merece essa checagem.
Vitaminas e minerais
- Vitamina D — deficiência é comum mesmo em país ensolarado.
- B12 — obrigatório acompanhar em vegetarianos, veganos e pós-cirurgia bariátrica.
Função renal e hepática
- Creatinina, ureia, TGO/TGP — relevantes antes de indicar dieta hiperproteica ou suplementação.
Como montar a guia de solicitação
Uma guia mal feita volta do laboratório, e o paciente perde a viagem. O mínimo que ela precisa ter:
- Identificação do paciente — nome completo e data de nascimento.
- Sua identificação profissional — nome e número de registro (CRN). Sem isso, o laboratório recusa.
- Lista dos exames, com nomenclatura reconhecida. Códigos padronizados (TUSS) reduzem a chance de o laboratório interpretar errado — importante quando o paciente usa plano de saúde.
- Data da solicitação.
- Observações, quando houver — jejum necessário, fase do ciclo menstrual para exames hormonais, suspensão de suplemento antes da coleta.
Escrever isso à mão a cada consulta é a receita para erro e para uma guia que não parece profissional. Vale ter um catálogo de exames pronto no seu sistema, de onde você seleciona e gera a guia em PDF com seus dados já preenchidos.
Transformando resultado em conduta
Receber o PDF do laboratório é metade do trabalho. A outra metade:
- Compare com o histórico, não só com o valor de referência. Um marcador dentro da faixa, mas que piorou muito desde o último exame, diz mais que um valor isolado.
- Registre no prontuário do paciente, junto com a avaliação antropométrica. Exame solto numa pasta não vira acompanhamento.
- Explique em linguagem simples. O paciente que entende por que o plano mudou adere mais — e adesão é o que separa plano bom de resultado bom.
- Encaminhe quando for o caso. Alteração que sugira doença é do médico. Encaminhar não é perder o paciente; é ganhar credibilidade.
Exame não é troféu. Ele existe para responder a uma pergunta que você já tinha. Se você não sabe dizer o que faria diferente conforme o resultado, provavelmente não precisa pedir aquele exame agora.
Centralize no mesmo lugar onde o paciente já está
O ganho real aparece quando solicitação, resultado, avaliação antropométrica e plano alimentar vivem no mesmo prontuário. Você abre o histórico do paciente e vê a linha do tempo inteira — em vez de caçar PDF no WhatsApp e comparar de memória.
Na Fitney, o nutricionista monta a guia a partir de um catálogo de exames, gera o PDF com nome e registro profissional já preenchidos, e mantém tudo no mesmo lugar em que acompanha a dieta e a evolução do paciente.
Conclusão
Solicitar exame com critério é o que separa a conduta baseada em achismo da baseada em dado. Peça o que responde a uma pergunta clínica, monte a guia com identificação profissional completa, registre os resultados junto do histórico e encaminhe quando sair da sua competência.
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